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Guardiões, no sentido literal

A Amazônia ocupa cerca de 6,7 milhões de quilômetros quadrados repartidos entre nove países —treze vezes a Espanha— e concentra cerca de 40 % das florestas tropicais que restam no planeta. É sobretudo uma grande bomba de água e um estoque de carbono. As árvores evaporam a cada dia bilhões de litros que viajam como «rios voadores» e acabam chovendo sobre meio continente, e a floresta guarda na madeira e no solo uma parte decisiva do carbono que não está na atmosfera.

Na Amazônia vivem 47 milhões de pessoas, e entre elas cerca de 2,2 milhões de indígenas de 410 povos. É um território habitado, e quem o habita há milênios é quem melhor o conservou.

É o que dizem os dados. Onde há povos indígenas com território reconhecido, a floresta continua de pé.

  • 2,2 milhões

    de pessoas indígenas vivem na Amazônia, de 410 povos diferentes, cada um com sua língua, sua memória e sua forma de se relacionar com o território.

    Science Panel for the Amazon, Amazon Assessment Report 2021

  • 2,5 vezes

    menos desmatamento dentro dos territórios indígenas do Brasil com direitos reconhecidos do que fora deles (2,8 vezes na Bolívia e 2 na Colômbia).

    FAO e FILAC, «Os povos indígenas e tribais e a governança das florestas», 2021

  • 320-380 milhões

    de hectares de floresta são cuidados pelos povos indígenas e tribais na América Latina, que armazenam cerca de 34 bilhões de toneladas de carbono.

    FAO e FILAC, 2021

Esse relatório da FAO e do FILAC revisou mais de trezentos estudos publicados em vinte anos. Sua conclusão nos parece decisiva: proteger a floresta e proteger os direitos de quem vive nela são a mesma coisa. Onde o território está titulado e a comunidade pode decidir, a motosserra para; onde não, ela entra. Não há justiça climática sem justiça para os povos indígenas.

Por que isso é urgente

A Amazônia já perdeu cerca de um quinto de sua floresta original. Vários estudos científicos alertam que, se o desmatamento continuar avançando, amplas áreas poderiam cruzar um ponto de não retorno e se degradar para uma vegetação de tipo savana, incapaz de sustentar o ciclo da água que hoje sustenta. Ou seja: a floresta deixaria de fazer chover, e sem chuva não se recupera.

Por isso os territórios indígenas são, literalmente, a parte do mapa onde o sistema continua funcionando.

Dados de superfície, população e floresta: Science Panel for the Amazon, Amazon Assessment Report (2021). Sobre o ponto de não retorno: Thomas Lovejoy e Carlos Nobre, «Amazon Tipping Point», Science Advances (2018).

O que significa cuidar, do ponto de vista deles

Em muitas línguas amazônicas não existe uma palavra para «natureza» separada de «nós». O rio, a floresta, os animais e as pessoas fazem parte do mesmo tecido de vida. Cuidar do território é uma maneira de estar no mundo, que se aprende desde pequeno e se sustenta com os cantos, as histórias, as festas e o trabalho compartilhado.

Por isso, quando uma comunidade perde sua língua ou seus mais velhos, perde o manual com o qual se cuida de um território. E por isso a educação —a escola indígena, na sua língua e com seus saberes— é uma ferramenta de defesa da floresta tão real quanto um mapa ou um título de propriedade.

Esta é a ideia que sustenta a Rede de Escolas Guardiãs da Amazônia: que as escolas indígenas e as escolas europeias aprendam juntas, nas duas direções.

O que enfrentam hoje: nove países, um mesmo embate

A Amazônia se reparte entre Brasil, Peru, Bolívia, Colômbia, Equador, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. As leis mudam de um país para outro, mas o conflito de fundo é o mesmo nos nove: há quem viva nesse território e há quem queira o que está embaixo ou o que se pode colocar em cima.

É uma disputa muito concreta por terra, água, madeira, ouro, petróleo e rotas de transporte, em que uma das partes —os povos indígenas— tem direitos reconhecidos no papel e muito pouca força para fazê-los valer.

O que segue é um resumo honesto desses fronts. Cada país teria seu próprio capítulo, mas estes são os que se repetem em quase todas as comunidades com as quais trabalhamos ou das quais nos chegam notícias.

Cada item indica onde conferir. É uma situação viva: os dados e as leis mudam, e convém olhar a data antes de citar qualquer coisa. Esta página foi atualizada em setembro de 2026.

1. O território: reconhecido no papel, disputado na prática

Quase todos os países amazônicos reconhecem em sua Constituição algum direito dos povos indígenas sobre suas terras. O problema é o cómo: para que esse direito sirva de algo, o Estado precisa delimitar o território, registrá-lo e retirar de lá quem não deveria estar. Esse processo —a demarcação no Brasil, a titulação no Peru, o resguardo na Colômbia— é lento, caro e politicamente incômodo, e para assim que muda o governo.

Enquanto isso acontecem três coisas: ocupam-se terras sem título e depois se pede a legalização (a grilagem brasileira), fragmentam-se os territórios com concessões de mineração ou de petróleo concedidas por cima deles, e esgotam-se as comunidades em processos que duram décadas.

No Brasil, essa disputa tem hoje um nome concreto.

Centenas de pessoas indígenas caminham com faixas rumo ao Congresso Nacional do Brasil, em Brasília
Marcha do Acampamento Terra Livre rumo ao Congresso Nacional, em Brasília (2024). É a maior mobilização indígena do Brasil e ali se decide, entre outras coisas, o futuro das demarcações. Foto: Agência Senado / Senado Federal de Brasil · CC BY 2.0 · Wikimedia Commons

O caso do Brasil: o «marco temporal»

Tudo o que foi dito —a floresta de pé, a língua, a escola— depende de uma só coisa: que o território esteja reconhecido. No Brasil, esse reconhecimento se chama demarcação, e hoje está em disputa.

A tese do marco temporal sustenta que os povos indígenas só têm direito às terras que ocupavam fisicamente em 5 de outubro de 1988, o dia em que foi promulgada a Constituição brasileira, ou sobre as quais nessa data já houvesse um litígio aberto.

Dito assim soa a tecnicismo. O que significa é isto: aos povos que foram expulsos de suas terras antes de 1988 se pediria que provassem que estavam lá justamente no dia em que os haviam expulsado. Durante a ditadura militar, durante a época dos patrões da borracha, com a abertura de estradas e a chegada das fazendas, milhares de famílias indígenas foram deslocadas à força. O marco temporal transforma essa violência no argumento que lhes tira o direito.

A Constituição de 1988 não diz isso. Seu artigo 231 reconhece aos povos indígenas «os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam»: originários quer dizer anteriores ao próprio Estado, não nascidos em uma data.

Como chegamos até aqui

  • 2009 · Raposa Serra do Sol. O Supremo Tribunal Federal (STF) julga o caso dessa terra indígena de Roraima e, entre as condicionantes que fixa, aparece a ideia do marco temporal. Disse-se então que valia só para aquele caso, mas a partir daí passou a ser usada contra outras demarcações.
  • 21 de setembro de 2023 · o STF derruba a tese. O plenário do Supremo declara inconstitucional a tese do marco temporal, por nove votos a dois, em um recurso com repercussão geral (RE 1.017.365, Tema 1031). Parecia o fim.
  • Outubro-dezembro de 2023 · o Congresso a ressuscita. O Congresso aprova o PL 2903/2023 e escreve o marco temporal em uma lei ordinária. A Presidência veta parte do texto; o Congresso derruba os vetos. Assim nasce a Lei 14.701/2023.
  • Desde 2024 · o embate continua no Supremo. São apresentadas várias ações contra essa lei (ADI 7582, 7583 e 7586, e a ação declaratória ADC 87). O ministro relator abre uma comissão de conciliação para buscar um acordo entre as partes. As organizações indígenas, com a APIB à frente, a rejeitam com um argumento difícil de contestar: um direito constitucional não se negocia numa mesa.

Situação em setembro de 2026: a Lei 14.701/2023 continua em vigor e o Supremo não julgou o mérito. É um assunto vivo: convém conferir a data antes de citar qualquer coisa.

O que acontece se essa tese for aplicada

Isto é o que muda no terreno:

  • Demarcações paradas. Os processos que vinham avançando há anos ficam na gaveta. Há povos esperando há mais de trinta anos.
  • Terras já reconhecidas postas em dúvida. A lei abre a porta para revisar demarcações concluídas, de modo que nenhum território fica totalmente seguro.
  • Mais invasões. Onde o limite é discutível, entram a extração ilegal de madeira, a mineração (o garimpo), a pecuária e a soja. E atrás chegam as ameaças, as expulsões e os assassinatos de lideranças.
  • Atividades econômicas dentro do território. O texto aprovado facilita obras e iniciativas produtivas em terras indígenas sem o peso que antes tinha a decisão da comunidade.
  • Povos isolados em risco. Reduz-se a proteção de quem escolheu não ter contato, para quem qualquer encontro pode ser mortal por doenças comuns.
  • Sem território não há escola. Uma comunidade deslocada perde a aldeia, e com ela a escola, a língua que se ensina nela e os mais velhos que a sustentam. É isso que nos toca diretamente.

Por isso dizemos que a educação intercultural e a defesa do território são o mesmo trabalho. Uma escola indígena forte documenta a língua, forma seus próprios professores e dá à comunidade argumentos e voz própria. Uma escola europeia que entende isso deixa de olhar a Amazônia como paisagem e passa a olhá-la como um lugar onde vive gente com direitos.

Outras leis que pressionam no Brasil

O marco temporal é a peça mais conhecida, mas não avança sozinho. Estes são os fronts abertos que mais afetam a Amazônia e seus povos:

  • Licenciamento ambiental mais frouxo. Uma reforma do licenciamento ambiental permitiria que muitas obras fossem aprovadas com uma simples declaração da própria empresa. Seus críticos a chamam de «lei da devastação».
  • Mineração em terras indígenas. Há propostas em tramitação para permitir a mineração, o petróleo e as grandes barragens dentro de territórios indígenas.
  • Grandes obras de infraestrutura. A reconstrução da BR-319, que atravessa um bloco de floresta ainda inteiro entre Manaus e Porto Velho, e a ferrovia da soja (Ferrogrão) são os dois projetos com mais capacidade de abrir a fronteira agrícola.
  • Petróleo na foz do Amazonas. A exploração na chamada Margem Equatorial avança apesar dos alertas sobre os corais e as comunidades da costa.

Esses projetos mudam de nome e de número com frequência. Aqui os contamos pelo que fazem, não pelo número; para o detalhe e a data, as fontes estão mais abaixo.

2. O que se quer tirar de baixo

Ouro e mercúrio

A mineração ilegal de ouro —o garimpo— é provavelmente a ameaça que destrói mais rápido. Entra pelos rios com dragas e escavadeiras, deixa o leito destruído e usa mercúrio para separar o ouro. Esse mercúrio acaba nos peixes, e os peixes são a base da alimentação das comunidades ribeirinhas: foram documentados níveis preocupantes em mulheres e crianças de várias regiões. Com as dragas chegam ainda o álcool, a prostituição, as armas e as doenças.

O caso mais grave e mais conhecido é o do povo yanomami, na fronteira do Brasil com a Venezuela: em janeiro de 2023 o Governo brasileiro declarou emergência em saúde em seu território por causa da desnutrição e da malária associadas à invasão de milhares de garimpeiros.

Petróleo e gás

Na Amazônia ocidental —Equador, Peru, Colômbia e oeste do Brasil— boa parte do subsolo está dividida em lotes petrolíferos que se sobrepõem a territórios indígenas e a reservas naturais. Os vazamentos repetidos nos oleodutos contaminaram rios inteiros dos quais dependem comunidades que não tiveram nenhum benefício dessa extração.

No Equador, a disputa pelo Yasuní chegou às urnas: em agosto de 2023 a população votou em referendo deixar no subsolo o petróleo do bloco ITT, em um parque nacional onde vivem povos isolados. No Brasil, a nova fronteira está no mar: a exploração na chamada Margem Equatorial, diante da foz do Amazonas.

Madeira

A extração ilegal de madeira abre os primeiros ramais por onde depois entra todo o resto. Corta-se dentro de terras indígenas e de reservas, «esquenta-se» a madeira com autorizações de outra propriedade e exporta-se. As comunidades que denunciam ficam marcadas.

Um avião pegando fogo numa pista de terra no meio da floresta, com um agente ambiental de costas
Avião usado pelo garimpo ilegal, incendiado pelo Ibama durante uma operação em terra indígena. O garimpo que invadiu o território yanomami se abastecia por via aérea, com pistas clandestinas abertas dentro da floresta. Foto: Ricardo Campos da Nóbrega / Ibama · CC BY-SA 2.0 · Wikimedia Commons
Vista aérea de uma grande mancha de terra revolvida pelo garimpo junto a um rio de águas turvas, cercada de floresta
Área destruída pelo garimpo ilegal de ouro na Terra Indígena Kayapó, no estado do Pará (Brasil), durante uma operação do Ibama. Foto: Ibama / Instituto Brasileiro do Meio Ambiente · CC BY-SA 2.0 · Wikimedia Commons
Onde conferir

relatórios do Ministério Público e do Ministério da Saúde do Brasil sobre a emergência yanomami; RAISG (mapas de pressões e ameaças nos nove países); ISA; Amazon Watch; dados do MapBiomas sobre mineração.

3. O que se quer colocar em cima

Se a mineração e o petróleo vão atrás do subsolo, a outra metade do problema vai atrás da superfície.

  • Pecuária e soja. É, de longe, a principal causa do desmatamento na Amazônia brasileira. Primeiro derruba-se, queima-se e planta-se pasto; depois, se o terreno permite, chega a soja. Boa parte dessa produção é exportada, e uma parte acaba na Europa como ração.
  • Estradas. Uma estrada nova é o eixo pelo qual se ocupa tudo o que está nas laterais. A reconstrução da BR-319, entre Manaus e Porto Velho, atravessaria um dos blocos de floresta mais bem conservados que restam.
  • Barragens. As grandes hidrelétricas inundam territórios, cortam a migração dos peixes e deslocam comunidades inteiras. Belo Monte, no rio Xingu, é o exemplo que mais marcou os povos da região.
  • Vias de transporte para o grão. Ferrovias como o projeto Ferrogrão e as hidrovias que canalizam os rios são pensados para escoar a safra, e trazem consigo portos, armazéns e mais desmatamento.
Lavoura de soja que se estende até o horizonte sob um céu com nuvens
Plantação de soja em Brasnorte, noroeste de Mato Grosso (Brasil). A pecuária e a soja são a principal causa do desmatamento na Amazônia brasileira. Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil · CC BY 3.0 BR · Wikimedia Commons
Onde conferir

MapBiomas e PRODES/INPE (desmatamento no Brasil), RAISG (obras de infraestrutura na pan-amazônia), relatórios do ISA sobre Belo Monte e a BR-319.

4. Quem pressiona: as empresas e as cadeias que chegam até aqui

Atrás de quase todos os fronts anteriores há um mercado, e esse mercado quase nunca está na Amazônia.

O ouro do garimpo é fundido e vendido; a carne e a soja são exportadas; o petróleo é refinado fora; a madeira acaba em móveis e pisos. Empresas de mineração, petrolíferas, do agronegócio e tradings internacionais —e os bancos e fundos que as financiam— são parte do problema mesmo que nunca pisem numa aldeia. E o consumo europeu está dentro dessa cadeia.

Há tentativas de cortá-la. A União Europeia aprovou um regulamento sobre produtos livres de desmatamento que obrigará as empresas a demonstrar que a soja, a carne, a madeira, o cacau ou o café que vendem não vêm de terras desmatadas. Sua aplicação vem sendo adiada, e as organizações indígenas pedem que também se verifique o respeito aos seus direitos, e não só a cobertura florestal.

Há também um princípio que quase ninguém cumpre de fato: o consentimento livre, prévio e informado, reconhecido na Convenção 169 da OIT e na Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Na prática, muitas consultas são feitas tarde, mal ou com a decisão já tomada.

Pessoas indígenas diante de um cordão de policiais com capacetes e escudos numa avenida de Brasília
Cordão policial diante da marcha do Acampamento Terra Livre em Brasília (2024). Defender o território implica também enfrentar processos e criminalização. Foto: Agência Senado / Senado Federal de Brasil · CC BY 2.0 · Wikimedia Commons
Onde conferir

Regulamento (UE) 2023/1115 sobre desmatamento; Convenção 169 da OIT; Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas (2007); relatórios da Amazon Watch e da Global Witness sobre cadeias de fornecimento.

5. Defender o território é perigoso

A América Latina é, ano após ano, a região onde mais pessoas defensoras da terra e do meio ambiente são assassinadas, e a Amazônia concentra uma parte importante desses casos. Brasil, Colômbia e Peru lideram quase todas as listas. Os dados são publicados a cada ano pela Global Witness; no Brasil, o CIMI documenta ainda invasões, conflitos e mortes em seu relatório anual.

O assassinato do indigenista Bruno Pereira y del periodista Dom Phillips no vale do Javari, em junho de 2022, deu nome internacional a algo que acontece de forma contínua e quase sempre sem testemunhas.

Junto à violência direta há outras duas formas de pressão, mais silenciosas: a criminalização —processar as lideranças por «esbulho» ou «terrorismo» para desgastá-las nos tribunais— e a presença de economias armadas: nas fronteiras da Colômbia, do Peru e do Brasil, a coca e as rotas do narcotráfico entraram em territórios indígenas, inclusive com aliciamento de jovens.

Povos em isolamento voluntário

Na Amazônia vivem todavía pueblos que han decidido no tener contacto con el resto de la sociedad. El valle del Javari, no Brasil, e várias reservas do Peru concentram a maior parte. Para eles, um encontro não desejado não é um incidente: uma gripe comum pode acabar com uma família inteira. Qualquer redução na sua proteção —uma estrada, uma missão, uma concessão— é uma ameaça direta à sua sobrevivência.

Onde conferir

relatórios anuais da Global Witness; relatório «Violência contra os Povos Indígenas no Brasil» (CIMI); Survival International e FUNAI sobre povos isolados.

6. O que quebra primeiro: a saúde e a escola

Quando um território é invadido, o primeiro que falha são os serviços que sustentam as pessoas.

La saúde indígena depende de equipes que precisam chegar de barco ou de avião a comunidades muito dispersas. Quando entra o garimpo, aumentam a malária e a desnutrição, e as equipes não conseguem trabalhar com segurança. A emergência yanomami de 2023 mostrou até onde isso pode chegar.

La escola indígena sofre o mesmo por outro lado. A lei brasileira reconhece desde 1988 uma escola própria, bilíngue e intercultural; na prática, a maioria não tem conexão de internet, muitas só chegam aos primeiros anos —para continuar estudando é preciso sair da aldeia— e boa parte dos professores indígenas trabalha com contratos temporários, salários baixos e pagamentos atrasados.

A isso somou-se em muito pouco tempo a chegada da internet por satélite a aldeias que nunca tinham tido sinal. Traz coisas boas —avisar de uma emergência, denunciar uma invasão, estudar a distância— e também problemas que ninguém preparou. Por isso acompanhamos as escolas em vez de apenas levar equipamentos.

Imagem de satélite do norte da América do Sul com colunas de fumaça sobre a floresta
Fumaça dos incêndios sobre a Amazônia, vista pelo satélite Terra da NASA (2020). Foto: MODIS Land Rapid Response Team / NASA GSFC · Dominio público · Wikimedia Commons
Onde conferir

Censo Escolar do INEP (Brasil); Siasi/Sesai para os dados de população e saúde indígena; nosso próprio Relatório 2025.

7. Negócios novos com a floresta de pé

Nos últimos anos apareceu uma pressão diferente e menos visível: os contratos de carbono. Empresas intermediárias chegam às comunidades com acordos de trinta ou quarenta anos para vender os créditos de carbono da sua floresta, redigidos numa língua e com cláusulas que quase ninguém ali consegue avaliar.

Alguns desses projetos são sérios. Outros foram assinados sem consentimento real, sem assessoria jurídica independente e com repartições muito desiguais, a ponto de a imprensa brasileira e peruana ter popularizado a expressão «carbon cowboys» para descrevê-los. As organizações indígenas não rejeitam o mecanismo em bloco: pedem regras claras, consulta de verdade e que sejam elas a decidir.

A lição é a mesma de sempre: qualquer proposta que chegue de fora, por mais verde que pareça, precisa que a comunidade possa entendê-la e decidir nos seus próprios termos. Isso é, também, uma questão educativa.

Onde conferir

investigações jornalísticas sobre contratos de carbono na Amazônia brasileira e peruana; posições da COICA e da APIB sobre mercados de carbono.

8. O clima, que já não é previsão

A Amazônia perdeu cerca de um quinto de sua floresta original, e os anos recentes trouxeram secas extraordinárias: rios em mínimas históricas, comunidades isoladas porque o barco já não passa, peixes mortos, e temporadas de incêndios cada vez mais longas.

Vários estudos alertam que amplas áreas poderiam cruzar um ponto de não retorno e se degradar para uma vegetação de tipo savana, incapaz de sustentar o ciclo da água que hoje sustenta. Dito de outro modo: a floresta deixaria de fazer chover.

Quem menos contribuiu para a mudança climática é quem primeiro a sofre, e é também quem melhor conservou o que resta. Por isso insistimos: não há justiça climática sem justiça para os povos indígenas.

Onde conferir

Lovejoy e Nobre, «Amazon Tipping Point» (2018); relatórios do IPCC; Science Panel for the Amazon (2021); dados de seca e incêndios do INPE e do MapBiomas.

9. E o que eles fazem: um movimento

Contar só as ameaças dá uma imagem falsa. Os povos indígenas da Amazônia estão se organizando há meio século, e conquistaram coisas que pareciam impossíveis.

  • Organizações próprias nos nove países, articuladas na COICA. No Brasil, a APIB; no Peru, AIDESEP; na Colômbia, a OPIAC; no Equador, a CONFENIAE. E, no vale do Juruá onde trabalhamos, a OPIRJ.
  • Litígio e presença institucional. Levaram seus casos ao Supremo do Brasil, à Corte Interamericana de Direitos Humanos e à ONU, e conquistaram decisões que hoje são referência.
  • Vigilância do território. Brigadas próprias, drones, GPS e aplicativos de denúncia geridos pelas comunidades: boa parte das invasões que são barradas é detectada por elas primeiro.
  • Política. Deputadas e deputados indígenas, e no Brasil um Ministério dos Povos Indígenas criado em 2023.
  • Educação e língua. Escolas próprias, professores formados na comunidade, dicionários e materiais feitos pelos professores indígenas. É a parte mais lenta e a mais difícil de desfazer.

É nessa última linha que o nosso trabalho se encaixa, e é a razão de esta associação existir.

Lideranças indígenas com grandes cocares de penas brancas e vermelhas durante uma mobilização
Lideranças indígenas de diferentes povos no Acampamento Terra Livre de Brasília (2024). Foto: Agência Senado / Senado Federal de Brasil · CC BY 2.0 · Wikimedia Commons
Onde conferir

sites da COICA, APIB, AIDESEP, OPIAC, CONFENIAE e OPIRJ; decisões da Corte Interamericana de Direitos Humanos em casos indígenas.

10. Acre: a luta que tornou possível o nosso trabalho

Tudo isso se entende melhor olhando um lugar concreto. O nosso é o Acre, o estado do extremo oeste do Brasil onde estão a Escola Ixubãy Rabuĩ Puyanawa e a escola nukini com as quais trabalhamos. E no Acre esta história tem nomes próprios.

Da borracha ao trabalho forçado

No fim do século XIX, a febre da borracha levou ao Acre milhares de trabalhadores do Nordeste. Os seringais funcionavam com um sistema de dívidas: o patrão adiantava comida e ferramentas, o seringueiro pagava com látex e a conta nunca terminava de ser quitada. Os povos indígenas foram perseguidos, deslocados ou postos a trabalhar nas mesmas condições, e os Puyanawa e os Nukini estão entre eles: seu território foi ocupado por seringais e sua língua quase se perdeu.

Chico Mendes e os empates

Nos anos setenta, quando a borracha deixou de ser rentável, muitos seringais foram vendidos a pecuaristas que chegavam para derrubar. Os seringueiros de Xapuri responderam com os empates: famílias inteiras, com crianças, colocando-se diante das motosserras para impedir a derrubada. Sem armas.

Francisco Alves Mendes Filho, «Chico Mendes» (1944-1988), seringueiro e sindicalista, foi quem transformou aquela resistência numa proposta: as reservas extrativistas, territórios protegidos con as pessoas que vivem dentro e não sin elas. Sua ideia era simples e nova: a floresta em pé dá de comer a quem sabe viver nela, e por isso quem vive nela é o melhor guardião possível.

Chico Mendes foi assassinado na porta de casa em 22 de dezembro de 1988, em Xapuri, a mando de um fazendeiro. Sua morte teve uma repercussão mundial que ele nunca alcançara em vida, e dois anos depois foram criadas as primeiras reservas extrativistas.

Retrato de Chico Mendes
Chico Mendes, seringueiro e sindicalista de Xapuri (Acre), assassinado em 22 de dezembro de 1988. Foto: Agência de Notícias do Acre · CC BY 2.0 · Wikimedia Commons

A Aliança dos Povos da Floresta

O mais importante que aquela época deixou foi uma aliança. Até então, seringueiros e indígenas tinham sido colocados uns contra os outros: uns entravam nas terras dos outros. Em 1989 foi selada em Rio Branco a Aliança dos Povos da Floresta: pela primeira vez, os dois povos da floresta se reconheceram como aliados diante de quem vinha derrubar.

Daí vem a palavra que dá nome ao nosso sócio honorário. Txai, na língua huni kuin, significa algo como «mais que um amigo: uma parte de mim em você e uma parte de você em mim». Virou a saudação daquela aliança, e deu título ao disco Txai que Milton Nascimento gravou depois de percorrer o Acre em 1989.

Terri Valle de Aquino, o outro txai

Ao lado daquela aliança houve também um antropólogo. Terri Valle de Aquino, formado na Universidade de Brasília, chegou ao Acre em meados dos anos setenta para fazer sua pesquisa de mestrado entre os Kaxinawá (Huni Kuĩ). Quando subiu o rio Jordão até as cabeceiras encontrou algo que não esperava: comunidades indígenas trabalhando na borracha em condições de escravidão por dívida.

Em vez de escrever e ir embora, ficou. Foi o primeiro profissional de sua área a fazer os levantamentos socioeconômicos e fundiários dos povos indígenas do Acre rio por rio no Alto Juruá —o trabalho técnico sem o qual não há demarcação possível—, trabalhou na FUNAI e foi um dos fundadores da Comissão Pró-Índio do Acre.

Os Huni Kuĩ lhe deram o mesmo nome que a Macedo: txai. No Acre há dois, e os dois aparecem nesta história.

Txai Macedo

Retrato em preto e branco de Txai Macedo, de chapéu e óculos escuros
Txai Macedo (1952-2026), sócio honorário da associação. Foto: arquivo de Guardians de l’Amazònia

Antônio Luiz Batista de Macêdo, «Txai Macedo» (1952-2026), foi uma das pessoas que sustentou aquilo por dentro. Nasceu no Seringal Transval, às margens do rio Muru (Acre), junto a uma comunidade huni kuin, foi seringueiro, piloto fluvial, mecânico, indigenista, poeta e cantador. Desde os anos setenta trabalhou com o antropólogo Terri Valle de Aquino e com a Comissão Pró-Índio do Acre percorrendo rios e aldeias para explicar às comunidades quais eram seus direitos e apoiar a demarcação de suas terras.

Foi amigo e colaborador de Chico Mendes, peça-chave da Aliança dos Povos da Floresta e da luta que levou em 1990 à criação da Reserva Extrativista do Alto Juruá, a primeira do tipo no mundo, no mesmo vale onde hoje trabalhamos. Viveu em terra puyanawa e ali formou sua família.

E foi, até sua passagem, amigo e mentor indigenista de Adolf Sanz, fundador desta associação: uma das primeiras pessoas que acreditou na Rede de Escolas Guardiãs. Sua biografia completa está em Quem somos.

Txai Macedo tocando violão sentado num banco, ao lado de três pessoas ashaninka com cocares e um tambor
Txai Macedo tocando em Apiwtxa, a aldeia ashaninka do rio Amônia (Acre). Chamavam-no «o cantador da floresta». Foto: arquivo de Guardians de l’Amazònia

A escola indígena do Acre vem de longe

Há uma peça desta história que quase nunca se conta e que nos toca diretamente. Ao mesmo tempo em que se lutava pelas demarcações, a Comissão Pró-Índio do Acre começou a formar professores indígenas y a agentes agroflorestais das próprias comunidades, num momento em que a ideia de um indígena dar aula na sua língua e na sua aldeia soava a utopia.

Daí saiu boa parte da escola indígena que existe hoje no Acre: professores da comunidade, materiais feitos ali, ensino em língua própria. Quando acompanhamos os educadores da Escola Ixubãy Rabuĩ Puyanawa, estamos trabalhando dentro dessa tradição, sem inventar nada.

E hoje

A pressão não foi embora. O Acre continua tendo desmatamento, pecuária que avança e estradas que se querem abrir rumo ao Pacífico; e as comunidades do Juruá continuam defendendo o mesmo que Chico Mendes e Txai defendiam: que a floresta continue em pé com a sua gente dentro.

O que mudou foi a ferramenta. Onde antes havia empates, hoje há escolas: professores indígenas formados, língua documentada, materiais próprios e meninas e meninos de dois continentes conversando por videoconferência. É mais lento e menos épico, e é o que sabemos fazer.

Onde conferir

Comissão Pró-Índio do Acre (cpiacre.org.br), que publica entrevistas con Terri Aquino y la historia de la formación de docentes indígenas; el archivo del Instituto Socioambiental (ISA) sobre las reservas extrativistas y la Aliança dos Povos da Floresta; el Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que lleva el nombre de Chico Mendes; y la biografía de Txai Macedo en Quem somos.

O que nós fazemos com isso

Não somos uma organização jurídica nem substituímos quem conduz esta luta: a APIB, as organizações de cada povo, o CIMI, o ISA e tantas outras. Nosso trabalho é menor e mais lento, e vai por outro caminho:

  • Contar direito, aqui. Que numa escola da Catalunha se saiba que existe o marco temporal, e que se entenda de onde vem. Estudantes que entendem isso são, daqui a alguns anos, uma opinião pública que não engole.
  • Fortalecer a escola indígena lá. Formação de professores, materiais próprios, conexão e equipamentos: uma escola que funciona é uma comunidade com mais ferramentas para se defender.
  • Dar a palavra a quem a tem. Nas nossas videoconferências e intercâmbios quem fala é o povo puyanawa e nukini, não nós em nome deles.

Você pode ver como isso se concretiza na Rede de Escolas Guardiãs e nas escolas da Amazônia.

Para entender por dentro

Atrás de tudo isso há uma discussão mais funda que a jurídica: o que é um rio, quem pode ter direitos e o que significa viver bem. Reunimos essa parte em uma página à parte, com suas fontes e sua bibliografia.

De onde vem o nosso olhar →

Os povos com quem trabalhamos

A Rede nasceu do vínculo com o povo Puyanawa, no vale do Juruá (Acre, Brasil), e está se estendendo ao povo Nukini. As duas comunidades são vizinhas e compartilham história: a da borracha, a do cativeiro e a da recuperação.

  • Puyanawa

    Mâncio Lima, Acre (Brasil) · família linguística pano

    Escravizados durante o auge da borracha e privados de sua língua, hoje a recuperam com sua escola, seus cantos e suas festas. Com eles começou tudo.

    Conhecer o povo Puyanawa

  • Nukini

    Mâncio Lima, Acre (Brasil) · família linguística pano

    Vizinhos dos Puyanawa, na serra do Môa, junto ao Parque Nacional da Serra do Divisor. A extensão da Rede para a sua escola está em andamento.

    Conhecer o povo Nukini

Ver o mapa dos territórios indígenas do vale do Juruá →

Como falamos dos povos indígenas

  • Contamos o que as próprias comunidades querem que se conte, e com os nomes que elas usam.
  • Não usamos sua cultura como cenário: nem fantasias, nem «índios» de história infantil, nem cerimônias fora de contexto.
  • As fotografias são publicadas com permissão, e não publicamos imagens em que se reconheçam rostos de crianças.
  • Quando damos dados, dizemos de onde vêm. Se não sabemos com certeza, não afirmamos.

Onde conferir tudo isso

As fontes, uma a uma
  • Povos Indígenas no Brasil, do Instituto Socioambiental (ISA): a enciclopédia de referência sobre os povos indígenas do Brasil, com fichas por povo.
  • FAO e FILAC (2021), «Os povos indígenas e tribais e a governança das florestas»: a revisão de mais de 300 estudos sobre desmatamento e direitos territoriais.
  • Science Panel for the Amazon (2021), Amazon Assessment Report: o estado da Amazônia segundo mais de 200 cientistas.
  • RAISG (Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada): mapas e dados dos territórios indígenas dos nove países amazônicos.
  • INEP (Ministério da Educação do Brasil): Censo Escolar, com os dados das escolas indígenas.
  • Constituição do Equador (2008), artigos 10 e 71 a 74: a natureza como sujeito de direitos.
  • Lei 19/2022, de 30 de setembro, de reconhecimento de personalidade jurídica à lagoa do Mar Menor e à sua bacia (Espanha).
  • Christopher D. Stone, «Should Trees Have Standing?» (1972), o artigo que abriu o debate jurídico.
  • APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil): a voz do movimento indígena brasileiro sobre o marco temporal e as leis em tramitação.
  • CIMI (Conselho Indigenista Missionário): seu relatório anual «Violência contra os Povos Indígenas no Brasil» documenta invasões, conflitos e assassinatos.
  • Supremo Tribunal Federal do Brasil: la sentencia del recurso RE 1.017.365 (Tema 1031), de septiembre de 2023, y las acciones contra la Lei 14.701/2023.
  • Lei 14.701, de 20 de outubro de 2023: o texto oficial está publicado pela Presidência da República do Brasil.
  • Constituição do Brasil (1988), artigos 231 e 232: los derechos originários de los pueblos indígenas sobre sus tierras.
  • RAISG (Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada): mapas de pressões e ameaças nos nove países amazônicos.
  • COICA e as organizações nacionais (APIB, AIDESEP, OPIAC, CONFENIAE, OPIRJ): a voz dos próprios povos.
  • Global Witness: relatório anual sobre pessoas defensoras da terra e do meio ambiente assassinadas.
  • MapBiomas y PRODES/INPE: desmatamento, mineração, fogo e uso do solo no Brasil.
  • Convenção 169 da OIT y Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas (2007): o consentimento livre, prévio e informado.
  • Regulamento (UE) 2023/1115 sobre produtos livres de desmatamento.

As fotografias desta página que não são nossas vêm do Wikimedia Commons com licenças que permitem seu uso: indica-se em cada legenda o autor, a entidade e a licença. As fotos das nossas escolas e comunidades são próprias.

A bibliografia acadêmica completa está em De onde vem o nosso olhar.

Página atualizada em 19 de setembro de 2026.

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